Curiosidades,Games

Sobre melhores amigos, a vida e videogames

27 ago , 2014  


Quando videogame é o fator de presente, passado e futuro, você percebe quão importante isso pode ser em nossas vidas.

Por Matheus Gonçalves

To read it in English, click here.

Por algum tempo eu relutei em escrever sobre isso, mas meus amigos Ronaldo Gogoni e Dori Prata insistiram para que eu publicasse essa história, então aqui vai.

Por volta de 1999, eu morava no litoral sul de São Paulo. Certamente não me encaixava naquele lugar. Não que a cidade fosse ruim, apenas não era um lugar pra mim.

Conheci o Guilhermo quando eu tinha 17 anos. Ele tinha 16.

Ele era um cara recluso, também se incomodava com essa realidade litorânea e preferia ficar em seu quarto jogando, lendo quadrinhos e ouvindo bandas que eu ouço até hoje.

Sobre melhores amigos…

Imediatamente viramos grandes amigos. Passamos a andar juntos, fazer música juntos e claro, jogar videogame. Ele tinha um Nintendo 64 e a gente adorava jogar GoldenEye 007.

Certa vez ele me contou que iria viajar, coisa rápida. Depois de muita conversa consegui convencê-lo de me emprestar o 64 durante esses dias.

Como Guilhermo já tinha fechado o single player do 007 milhares de vezes, pedi pra ele anotar algumas dicas e macetes que lembrava de cabeça. Modo invencível, acesso a todas as armas, o que fazer para habilitar determinado cenário, coisas assim.

 

007

 

Ele escreveu o que lembrou, botou no meio do manual do jogo e me entregou tudo dentro de uma sacola antes de viajar.

Levei pra casa, todo feliz. Joguei muito, usei os cheats, passei várias fases, mas a verdade é que eu não consegui terminar o jogo. Daqui a pouco a gente volta a falar disso.

Hora de devolver o videogame para o Guilhermo. Fui até a casa dele, que me contou como tinha sido a viagem, e rimos muito com coisas que aconteceram por lá.

E jogamos, evidentemente, pois ninguém é de ferro.

Sobre a vida…

Depois de algum tempo eu me mudei de cidade. Ele também, mas nunca perdemos completamente o contato. Vocês sabem como isso funciona. Novos amigos, cada um saindo pra lugares diferentes, mas tentando se ver sempre que dava.

Em um feriado prolongado, tínhamos marcado de nos encontrar, mas ele não apareceu. Tentei contato, mas o cara não ficava online no MSN, nem respondia os emails. Em uma época na qual celulares ainda não eram disseminados como hoje, encontrar alguém assim não era nada fácil.

Somente depois de 3 dias recebemos notícias, através da família. O Guilhermo estava voltando pra casa com amigos, quando o rapaz que estava ao volante perdeu o controle e bateu o carro. De alguma forma, ele foi arremessado pra fora do veículo.

Descobrimos onde ele estava hospitalizado e os médicos concluíram que ele tinha sofrido múltiplas fraturas. Nos disseram que não seria possível uma visita naquele momento.

No outro dia, estávamos nos preparando para ir ao hospital quando recebemos a notícia que nós mais temíamos: o Guilhermo de fato tinha falecido. 21 anos. Ele só tinha 21 anos…

Eu chorei muito, foi como perder um pedaço de mim. Ele fez parte essencial da vida de muitas pessoas ao meu redor. Da minha vida. Me senti sem chão mesmo. A presença da morte é cruel e inexplicável em palavras.

Sobre videogames…

Anos depois, vida que segue, estou morando em um lugar completamente diferente.

Numa luta pra montar uma coleção de consoles antigos, finalmente consegui um Nintendo 64. Yay!

 

 

Te dou uma Golden Gun se você adivinhar qual foi um dos primeiros jogos que eu quis terminar.

Claro! Peguei o cartucho do GoldenEye 007, dei uma assoprada e, com aquela poeira que volta em direção ao nosso rosto, veio também a ideia de vascular uma pasta com revistas antigas de videogame.

Ao abrir esse portal de ácaros e publicações carcomidas dos anos 90, descobri que o manual do jogo do Guilhermo tinha ficado comigo, dentro da pasta.

Peguei o manual com tensão semelhante à do Indiana Jones quando ele estava vendo a Arca Perdida ser aberta.

Dentro do manual eu encontrei a folha, agora amarelada, com todas as dicas que o Guilhermo escreveu pra mim.

Lembrei imediatamente de todas as tardes que jogamos juntos, de todas as músicas que fizemos, do seu senso de humor único, das nossas viagens e das coisas que ele gostaria de ter feito.

 

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Hoje, 10 anos depois que você se foi, com lágrimas lavando o joystick, volto a jogar Nintendo 64 com você. Com suas palavras ao meu lado, como se você ainda estivesse aqui.

E ainda sinto saudade de você, meu irmão. Você deu um jeito de continuar presente.

 

ToadGuy

guilhermo

 

Foi muito difícil terminar este texto, mas ainda assim, valeu a pena.

Até mais, e obrigado pelos peixes!
 
 
 


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  • Janaina Pupo

    Ele está lá de cima olhando por todos nós. Adorei o texto, fiz um ano passado, com as cartas que ele me escreveu (algumas), mas não tive coragem de publicar.

    Muito bom, Matheus, e enquanto a gente não encontrar com o Guylhermo, pra depois do abraço apertado, dar um peteleco na zoreia dele por ter nos deixado tão prematuro, vamos vivendo assim, com as maravilhosas lembranças e engolindo saudade.

    Beijos e saudade docê tbm!

  • brunaru

    Toad, o rack tá envergando com o peso da TV de tubo, vai cair em ciam dos seus consoles! ahahahahaha (é sério! troca o rack!)

    Preciso jogar esse! Vou voltar a procurar os cartuchos de 64 que me falta mno ebay AEEEE!

    E boas lembranças sempre permanecem com a gente! Thanks Lord!

    • Tá no projeto da casa trocar esse rack. Foi o primeiro que eu comprei aqui. Mas o dois negocinhos de baixo seguram a onda, sério.

  • Jorge Zion

    Esteja onde estiver, ele com toda a certeza te ama muito! Essa é uma dor que não é fácil suportar, mas, imagino que são as lembranças dos momentos bons que ainda te mantem firme. Apesar de ser muito, muito tarde mesmo, meus sentimentos…

    • Valeu pela força Jorge. De verdade, means a lot. Esse post, inclusive, trouxe tanta energia boa, tantos comentários legais, com certeza me ajuda e vai continuar me ajudando a seguir em frente. Obrigado a você e a todos que comentaram aqui.

  • Leo Teixeira

    me emocionei muito e identifiquei com o texto tbm, jogo desde pequeno com 7 anos e em uma escola nova fiquei amigo do colega do meu primo, o nome dele é reynaldo e tbm curtia jogos,o primeiro jogo que me emprestou nem lembro qual foi mas ele assim como eu era muito fã da serie Hitman,ano passado dia 4 de agosto um amigo nosso fez gracinha ao volante eu e o reynaldo estavamos sem cinto no banco do passageiro ele foi arremessado pelo vidro traseiro e veio a falecer com 21 anos somos super fã de rock e sua banda favorita é o Iron Maiden fui no rock in rio ver a banda favorita do meu irmão, resolvi compartilhar minha historia pois a sua historia me lembrou muito a minha

    • Oi Leo, realmente passamos por algo muito parecido e você me entende. Força aí cara.

  • Roberto Lima

    Excelente texto, felizmente não vivenciei uma situação parecida mas tenho amigos de infância que considero irmãos e posso imaginar a falta que esse cara te faz.

    Meus sentimentos.

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  • THManiac

    C A R A C A S S S ! ! ! Que show!!! Fiz um “campeonato” de 007 Goldeneye com ele! No tempo que não existia versus online. Pra tirar “contra” vc colocava um controle na sacola do Extra e ia na casa do amigo de bicicleta hehehe…Nunca tinha ido na casa do Guilhermo sem o Alex, que era o amigo mais proximo dele, até ser desafiado no corredor do Gago pra uma partida hehehe…Juntos eramos os deslocados no Litoral, onde curtíamos MTV, filme B e tocar nirvana no violão, enquanto a maioria da galera da nossa idade ia pra baile funk…Vai ficar pra sempre gravado na minha alma tbm…que mundo maluco cara…

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