Science

Vamos falar sobre popularização da Ciência?

23 fev , 2015  


 

 

Levanto questionamentos aqui que podem nos ajudar a achar um Norte para a divulgação científica com grande alcance popular. Ideias?

Por Matheus Gonçalves

Se você não assistiu o vídeo acima, do Pirulla, assista e depois vamos debater alguns pontos aqui embaixo. A ideia é tentar chegar numa estratégia de divulgação popular de ciência.

Como ele bem disse no vídeo, existem excelentes projetos no Brasil e em outros países que têm como objetivo a divulgação do pensamento científico.

Além do SciCast, que ajudei a fazer nascer e tem crescido bastante, temos o Nerdologia do Átila Iamarino e Jovem Nerd, o Rainha Vermelha, o próprio Canal do Pirulla, o Ceticismo Aberto, e-Farsas, Ciência Todo Dia, Dragões de Garagem, Sociedade Racionalista, entre tantos outros.

 

Sci800

 

Acontece que, como pudemos perceber, esse tipo de conteúdo, veja só, chega apenas a quem procura esse tipo de conteúdo, em vez de chegar ao máximo número de pessoas possível.

Número esse que deveria incluir cidadãos que eventualmente vão se tornar gestores, políticos, ou qualquer outro cargo no qual ele vá decidir ou interferir diretamente ou indiretamente na vida de outras pessoas.

Precisamos falar sobre ciência, mas também precisamos aumentar o engajamento científico das pessoas em geral.

Segundo algumas pesquisas, falar sobre MÉTODO CIENTÍFICO parece ser mais efetivo que apenas falar de ciência:
 

 

Por isso, queria propor aqui alguns questionamentos importantes:

  • Como fazer da ciência algo atraente até para quem não quer ouvir falar de ciência?
  • Como apresentar o método científico de forma atraente até para quem não quer ouvir falar de ciência?
  • Como conscientizar as pessoas de que elas precisam desenvolver o pensamento científico?
  • Como conscientizar as pessoas de que criar o compartilhar boatos/hoax é algo prejudicial à todos nós?
  • Como mostrar às pessoas de que elas precisam mudar sua postura em relação às informações que elas consomem?

O campo de comentários está aberto aqui embaixo para que a gente discuta. Não tenho opinião formada sobre a eficácia através da rede, mas se quiserem usar o Twitter e o Facebook para opinar, sugiram alguma hashtag curta sobre o tema.

Se preferirem, usemos algum forum ou qualquer outra ferramenta na qual possamos organizar nossas ideias. Sugestões são mais que bem vindas.

 
 
 


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  • Lucas Bahamut

    Sobre as perguntas propostas, eu tenho experimentado um protocolo com meus priminhos mais novos, mas principalmente com pessoas que não tem vontade científica. Este protocolo tem como objetivo criar curiosidade científica, ensinar um pouco de pensamento crítico, mostrar que qualquer pessoa pode aprender sobre qualquer assunto, ensinar métodos de pesquisas (relevância, credibilidade, sensacionalismo, etc…), e criar um ciclo infinito de busca por conhecimento.

    Segue o protocolo:

    1. Selecione uma pessoa que tenha preconceitos ou ignorância proposital com um assunto específico, que vou chamar de TEMA 1.

    2. Procure algum outro assunto que a pessoa está interessad, curiosa ou demonstra facilidade, que vou chamar de TEMA 2.

    3. Mostre material simples e superficial sobre o TEMA 2.

    4. Pesquise para saber um pouco mais que a pessoa.

    5. Crie conversas amigáveis sobre o assunto e excite curiosidade, dando pistas sobre conceitos do TEMA 2 um pouco mais complexos.

    6. Mostre material mais complexo que satisfaça a curiosidade recêm criada, e mostre lados conflitantes do TEMA 2.

    7. Excite uma discussão sobre os lados conflitantes, usando o exemplo pra mostrar falácias, sustentabilidade lógica, evidências, e ensine pensamento crítico.

    8. Mostre como você adiquiriu estes conceitos mais complexos e pesquisou sobre os diferentes lados do TEMA 2.

    9. Mostre que o TEMA 2 está ligado a diversos outros temas e excite curiosidade sobre os mesmos, mesmo que a pessoa só mostre interesse em um assunto específico.

    10. Repeta o passo 2 a 9, ligando vários temas e passando conhecimento (a pessoa aplicando o protocolo acaba aprendendo muito no processo também) até conseguir ligar o TEMA N no TEMA 1.

    Retorno a 1. Auxilie a pessoa a combater os preconceitos ou ignorância com o TEMA 1 usando os métodos que aprendeu com outros temas mais amigáveis.

    É mais fácil educar alguém sobre razão e método científico usando um tema que ela demonstra curiosidade ou facilidade natural, e depois voltar pra mostrar uma perspectiva cética sobre temas que a pessoa se opõe fortemente.

    Muitos divulgadores batem de frente com os preconceituosos ou ignorantes de um assunto, chegando até a ridicularizar as pessoas por não concordarem com os mesmos. Isso acaba criando discórdia e ódio por parte dos ignorantes, que vão fugir da razão e da ciência, se abrigando em um lado mais confortável, ou simplista, e menos confrontante.

    Vou usar o exemplo da minha vó. Dona Toninha tinha preconceito com pessoas homesexuais. Ela foi instruída a vida toda, pela sua família fortemente religiosa e sua igreja extremamente doutrinadora, que homosexualidade é pecado e deve ser combatida. Dona Toninha nunca tinha se questionado sobre a questão e aceitava o fato como verdade única e universal.

    Porém, eu apliquei nela o protocolo da seguinte maneira:

    1. Selecionei Dona Toninha e seu preconceito com homsexuais como objeto de estudo.

    2. Descobri que ela gostava muito de jardinagem e adorava programas sobre flores e seus diferentes tipos.

    3. Mostrei pra ela programas simples especificamente sobre flores e pequenos pedaços de documentários sobre biologia e genética que usavam flores como exemplos.

    4. Pra poder conversartcom ela sobre o assunto, tive que fazer uma pesquisa prévia. Deu trabalho, mas valeu a pena, pois…

    5. …passei algumas tardes conversando com ela sobre o assunto, foi muito gostoso, …

    6. …e sempre tinha algum artigo ou programa novo pra apresentar. Ela não gostava muito de leitura, mas quando eu lia devagarinho com ela, ela gostava de acompanhar. Aos poucos ela passou a ler sozinha.

    7. Ela descobriu a polêmica envolvendo Organismos Geneticamente Modificados, e um universo todo se abriu diante dela. Pesquisamos juntos sobre os efeitos da modificação genética e os diversos lados que argumentavam de forma conflitante.

    8. Mostrei pra ela como fazer pesquisa, buscar pro credibilidade e não cair em falácias. Foi uma epopéia, mas deu certo.

    9. Mostrei pra ela que este assunto está ligado a diversos outros debates sobre oque é natural e oque é artificial.

    10. Demorou um pouco, mas chegamos no assunto homosexualidade. Daí pra frente eu só tive que fazer as perguntas certas pois ela fez a pesquisa quase toda sozinha.

    Retorno a 1. Ela conseguiu diferenciar oque é ciêntifico e oque é conceito religioso, e no final ela contrapôs o dogma ensinado pelo pastor. Hoje ela entende sobre homosexualidade e apoia o movimento LGBT.

    É claro, essa é uma história de sucesso e que consumiu diversos recursos, além de muita paciência. Eu tenho muito mais histórias de falhas doque acertos. Raramente consigo passar do passo 5, mas aprendi que se eu manter diversos experimentos ao mesmo tempo, uma hora ou outra dá certo!

    • Caramba, primeiramente parabéns pelo experimento – e pela paciência. Você chegou a documentar isso? Teve mais pessoas com quem você pode aplicar isso? Bem legal.

      Quando você tem acesso à pessoa assim, diretamente, dá realmente pra tentar ter esse tato e essa dedicação personalizada. Fica aí sua ideia registrada para esses casos, soa bem eficiente.

      Outro problema relacionado, mas um pouco mais complexo, é quando não temos acesso direto às pessoas (como, através de um produto criado na Internet).

      • Lucas Bahamut

        Oque quis dizer sobre documentar?
        E sim, tenho mais umas duas ou três histórias de sucesso com pessoas mais velhas.

        Quanto ao acesso indireto por Broadcasting, eu tento sempre espalhar programas de confiança, como o Nerdologia, o SciCast, o Vsauce e o Veritasium pras pessoas, em uma versão express do protocolo: encontro um assunto que eu sei que a pessoa gosta ou tem curiosidade, monto uma listinha de links e vou passando um por um, conversando sobre os assuntos entre um link e outro.

        Por exemplo, eu tenho um amigo que faz engenharia civil, mas não curtia muito física microscópica. Ele não entendia e não sabia diferir ciência de maluquices – tinha pavor da palavra quântica. Eu passei pra ele um videozinho do Veritasium de 4 minutos sobre o double lit experiment. Ele explodiu de curiosidade.

        Depois veio IFLScience, Interstellar, Vsauce, SciCast, StarTalk, e sempre conversando e debatendo sobre o assunto. Este exemplo acontecia quando o SciCast de luz foi lançado, e está relatado em um email. Virei noites e noites conversando no bar sobre física.

        Hoje em dia ele adora o assunto e me ajuda a combater o uso da palavra quântica pra justificar qualquer maluquice.

        • O que o Toad quis dizer é: você consolidou essa informação em algum lugar fácil de achar, tipo um blog? Artigos longos raramente são lidos, que dirá comentários ;).

          E concordo com ele, esse é um protocolo sensacional para desfazer crendices e gerar curiosidade nas pessoas, parabéns pelo esforço.

          • Lucas Bahamut

            Não, essa foi a primeira vez que realmente escrevi sobre o assunto. O protocolo já era aplicado de forma orgânica, eu simplesmente estruturei isso pra ficar fácil de entender e listei pra ficar fácil de falar sobre.

  • Lucas Bahamut

    Mudando um pouco de assunto, eu vejo muitos divulgadores fazendo um diserviço a causa. Isso acontece quando eles partemdo princípio que toda opinião oposta está errada; então, vão atrás apenas dos argumentos que os corrobaram, ignoram ou ridicularizam o lado oposto, e no final não efetivam nenhum avanço pois não conseguem convencer o lado oposto de seus próprios erros.

    Isso é muito perigoso, mesmo quando o divulgador está defendendo o lado correto, com os argumentos corretos. Os criacionistas usam do mesmo método: partem do princípio que estão sempre corretos e selecionam apenas os argumento benéficos. Acredito que esse hábito afasta o lado oposto, em vez de espalhar conhecimento, e apenas agrada aqueles que já foram convencidos (mantendo o conhecimento dentro de uma bolha) – vejo isso acontecer especialmente quando os divulgadores ridicularizam o lado oposto em vez de levá-lo a sério; por mais ridículo que seja, a falácia do espantalho atrapalha ambos os lados da discussão.

    É importante aplicar o método ciêntífico na retórica também: parta do princípio de que todos os lados são hipóteses; verifique todas as evidências e argumentos apresentados; aponte as falácias e inconsitências lógicas devidamente, sem ridicularização. Se conhece algum argumento que possa ser usado contra você, adiante que você sabe desse argumento e demonstre porque ele não é correto. De maneira gradual, madura e convidativa, mostre porque uma hipótese merece ser aceita enquanto as outras devem ser negadas.

    Obrigado por levantar essa excelente discussão Matheus.
    Você manda muito bem, merece muitos elogios.

    Um Abraço,

    Lucas B.

    • Pois é, e eu conheço algumas pessoas que fazem isso. Não vou nem citar nomes pra não gerar intriga. Essa coisa de “querer provar estar certo a todo custo” em vez de “querer comprovar uma hipótese assumindo a possibilidade de estar equivocado” não é um procedimento científico, é apenas babaca mesmo. Essas pessoas são tão arrogantes e convencidas (em todos os sentidos), que o debate se torna impossível. Acontece.

      O problema é quando essas pessoas fazem isso em nome da ciência ou do pensamento científico. Isso é tão prejudicial quanto os boatos e desinformação que vemos por aí. Seja por agredir o outro interlocutor, seja por presumir que todo mundo precisaria saber sobre determinado assunto, seja por suportar uma informação falsa, esse comportamento acaba afastando as pessoas do que é ciência, e de uma busca por um entendimento melhor das coisas.

      Legal você ter levantado esse ponto.

      • Lucas Bahamut

        Muito bom, concordo muito. Temos que ter uma postura um pouco menos radical e mais “Neil deGrasse Tyson.”

        Onomatopéia referentes a palmas pro seu comentário:
        *clap clap clap*

      • Delio H

        O legal é que quando entramos numa discussão “Abertos” conseguimos fortalecer nossos conhecimentos, e aprender mais. Se fechar em nossas opiniões ou a de “lideres” nos leva a estagnação mental. Muito boa sua técnica @lucasbalaminut:disqus. Parabéns a todos. Eu complemento o texto do blog com a informação de que quem não quer ouvir sobre algo, jamais aprenderá sobre esse algo. A técnica de despertar o interesse relacionando com outra conhecimento que a pessoa já possui é ótima.

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